Sunday, August 02, 2009

Férias do blog

A quem visita este blog, estou tirando férias por algum tempo.

Saturday, August 01, 2009

Martírio filosófico

"O homem que realmente consagrou sua vida à filosofia é senhor de legítima convicção no momento da morte, possui esperança de ir encontrar pra si, no além, excelentes bens quando estiver morto". Platão, Fédon, 64a.

E depois dizem que razão e fé são incompatíveis.

E são mesmo.

Friday, July 31, 2009

Bat-porcaria (2)

Lembrança póstuma: Protágoras, o sofista, dizia que μένις (cólera) e πήληξ (capacete) são masculinos (Aristóteles, Dos Argumentos Sofísticos, 173 b 20).

Então está explicado.

Wednesday, July 29, 2009

Bat-porcaria (1)

Apesar de ter alguma simpatia pelo gótico, sempre detestei o Batman. Na verdade, detesto todos os super-heróis, de Superhomem e Hulk a Indiana Jones. Acho intoleráveis esses tipos mascarados e vingadores, que acabam virando defensores dos seres humanos destituídos de poderes, inteligência e força. Para piorar, a um super-mocinho, um super-vilão ainda mais insuportável, cheio de desejo de matar, matar, matar, desde que o faça de modo sofiscado, para dar ao mocinho a chance de escapar.

Pois bem.

De tanto me indicarem, tomei coragem para assistir ao novo Batman, de Christopher Nolan. "O melhor de todos", segundo a propaganda. Sem dúvida melhor que o primeiro, que um dia me atrevi a assistir. Minha impressão deste primeiro filme do Batman, com Michael Keaton, é que ele redefiniu o ridículo. De tão ruim, chega a ser constrangedor. Ah, sim, Jack Nicholson era o coringa. Mas, pelo amor de qualquer coisa, o que há nesse tal Coringa que agrada tanto? Alguém pode me explicar esse fascínio por um personagem tão opera buffa? Tão tipo, tão linear?

O fascínio por essa coisinha chamada Coringa é tão grande que Jack Nicholson chegou a avisar Heath Ledger, o novo Coringa, para tomar cuidado com a personagem. O que é isso? Loucura coletiva? Heath Ledger morre, e eis a maldição do Coringa!

Compreensível. Já faz tempo que Howard Carter encontrou Tutankhamon.

Enfim. Eu já não gostava do Batman, como disse, e não vi nada de novo em Batman - O cavaleiro das Trevas, exceto um detalhezinho, sintoma dos novos tempos: o herói atropela a ética para fazer o bem. Ao menos isso servirá como exemplo em aulas de ética para adolescentes. Pode-se perguntar qual é o limite da ética, e se ela eventualmente contradiz a si mesma. É preciso, às vezes, escolher entre o certo e o certo, hierarquizando, priorizando valores? Neste caso, a ação escolhida pode ser considerada ética?

Já estou até imaginando a aula: Batman devia matar o cachorro? Sim!

É correto matar alguns, ou deixar morrer, para salvar muitos? Sim!

É correto torturar para obter informação? Sim!

Falando sério, o pior de Batman é que ele representa a truculência policial em sua luta contra o crime. Desde que o fim pretendido seja nobre, os meios são no mínimo toleráveis.

Policiais devem adorar o Batman.

No mais, Gotham City é depósito de lixo humano e concreto. Talvez por isso agrade tanto: é o faroeste urbano, onde tudo se resolve à bala pós-guerra fria, munida com sensor para não errar o alvo. E, claro, muita testosterona.

Moral da história? Só a tecnologia salva.

O resto é efeito especial.

Agora, por favor, parem de me indicar esse filme.

Friday, July 24, 2009

Verdade ou verdades?

Se me perguntassem onde arrumo tempo para assistir a seriados, eu não saberia dizer.

Talvez fosse mais apropriado perguntar por que assisto a seriados, mas eu também não saberia dizer.

De qualquer forma, depois de assistir a todas as temporadas de CSI Las Vegas e CSI Miami e uma de CSI New York, cansei desse tipo de programa.

Eu sei, demorou.

Mas tudo bem. Antes tarde que nunca.

De todo modo, saí dessa experiência com duas impressões fortes: a primeira é que a velha idéia de verdade empírica, meio fora de moda, meio desacreditada depois de Popper, voltou com força total. Nada é mais verdadeiro que um teste de DNA; nada é mais eficiente que a medicina forense.

Antes que alguém me acuse de tentar transformar a fantasia em realidade, lembro que, nesse caso, essa verdade empírica é ao menos idealmente a rotina das investigações policiais, o que já diz muito. A diferença, hoje, é que a tecnologia emprestou a essa rotina um caráter de verdade definitiva, como se não fossem necessários seres humanos para sintetizar os dados empíricos.

O segundo ponto é uma consequência natural e óbvia do que disse antes: o lugar do sujeito na investigação, já que foi tirado dele o lugar que lhe restou, o de intérprete desses dados. O sujeito desapareceu sob a tecnologia, sob a verdade empírica. O sujeito é aquele que deve se calar, aquele que não tem e não pode ter nada a dizer diante da verdade empírica. É o detalhe técnico que detém a verdade do sujeito que, neste caso, é o resto, aquilo que sobra da verdade não passível de revelação pela técnica.

Tuesday, July 21, 2009

Onde está o Kierkegaard de Adorno?

Sempre que leio a respeito da Escola de Frankfurt, sejam livros, artigos qualificados ou resenhas, encontro uma lista de pensadores que influenciaram a escola: Kant, Hegel, Marx e Freud.

Nunca, em momento algum, encontrei nesta lista o filósofo Kierkegaard.

Quando muito, há artigos especializados sobre a relação - estreita - entre Adorno e Kierkegaard, mas que são ignorados.

Lembro de uma discussão, num curso que fiz, sobre que pensador teria exercido maior influência sobre a escola, se Marx ou Freud. Não interferi na discussão, mas apostaria minhas fichas em Kierkegaard, até porque a estrutura do ego em Freud já estava antes em Kierkegaard. Ou seja, Freud e Adorno beberam da mesma fonte.

Este é um assunto para um trabalho mais cuidadoso, mas a semelhança é espantosa. Quando Adorno fala em tédio, raiva, ressentimento, inveja, isso tudo já está em Kierkegaard. Quando fala da publicidade como princípio unificador negativo, essa expressão, exatamente desse modo, está no filósofo dinamarquês. Quando se refere a um poder abstrato que captura a subjetividade, eis Kierkegaard novamente. Quando fala de uma cultura de superfície, de manuais e livros de auto-ajuda, lá vem Kierkegaard. Quando diz que o público é nada, ei-lo de novo. Cultura que na verdade é administração? Quantitativo em lugar do qualitativo? Kierkegaard.

Crítica social do ponto de vista da comunicação de massa? Kierkegaard (aliás, o primeiro).

A lista pode ser ampliada, mas não é necessário.

Tenho uma teoria sobre esta falta: ninguém conhece realmente a obra de Kierkegaard, e menos ainda o artigo que mais influenciou Adorno, The Present Age.

Mesmo assim, basta ler a biografia de Adorno para saber que escreveu dois livros sobre Kierkegaard. Só isso já devia ser suficiente para incluí-lo na lista das referências teóricas relevantes.

Ou não?

Sunday, July 19, 2009

Ainda sobre Indústria Cultural

Escrevi neste espaço, há algumas semanas, que encontro frequentemente um entendimento do conceito de Indústria Cultural que julgo equivocado.

Esse post gerou alguns comentários. Chamo a atenção para um deles, em que fui informada de que uma doutora em Adorno dizia que a Indústria Cultural nos faz comprar sapatos. Assisti ao video e de fato a afirmação está lá, não exatamente com relação a sapatos, mas no sentido que me foi indicado.

Como não sou especialista em Adorno, preferi ir à fonte e checar minha compreensão, que simplesmente insistir nela.

Bem, reli "A Indústria Cultural", o "Resumé sobre Indústria Cultural" e o "Sobre a Música Popular" e insisto: indústria cultural não diz respeito a sapatos, celulares, roupas etc. Trata-se da apropriação de "produtos" artísticos e do engenho humano pela lógica do capital. Em outras palavras, trata-se de oferecer ao público mercadorias culturais, no sentido restrito (repito: música, cinema, literatura), que não são materiais, e sim simbólicas.

Vender sapatos, celulares, roupas, carros, e utilizar a propaganda para isso, é o que a indústria tradicional faz. Ela nos torna consumidores, ela transforma o sujeito em consumidor. Isso não é IC; é a essência da sociedade capitalista, que faz com que qualquer coisa seja potencialmente mercadoria, e só tenha valor como mercadoria.

Adorno extrai dessa lógica a sua apropriação da arte e da cultura. Essa é a Indústria Cultural. É parte do sistema capitalista e funciona na mesma lógica, mas seu produto é outro. A Indústria Cultural não vende sapatos simplesmente. Quando muito, vende produtos materiais relacionados a produtos culturais, porque é um sistema que integra horizontal e verticalmente, mas o que ela produz, divulga e vende nem mesmo é o filme, a literatura barata ou a música ligeira. O que se vende e se compra, no fim das contas, são ideologias.

Friday, July 17, 2009

O homem no uniforme (2)

Eu ainda teria muito o que dizer sobre o filme "A última Gargalhada", de Murnau, mas optei por um comentário breve, a partir de Kierkegaard.

Kierkegaard dizia que, quando alguém desmaia, grita-se: "Água! Água de Colônia! Gotas de Hofmann!"

Mas, diante do desesperado, grita-se: "Possível, possível! Só o possível o pode salvar!

Diante do desespero da personagem principal do filme, e da impossibilidade de lhe oferecer o possível, Murnau lhe oferece o impossível.

Parodiando Kierkegaard: "Perante alguém que desespera, grita-se: impossível, impossível! Só o impossível o pode salvar!"

Vamos fazer de conta que há saída para o desesperado.

Wednesday, July 15, 2009

O homem no uniforme (1)

Definitivamente, Murnau era um gênio.

Ontem, assisti a Phantom. Hoje, vi The Last Laugh, A última gargalhada, e gostei ainda mais que do anterior.

Phantom é tão idealista quanto seu personagem principal. The Last Laugh é realista, denso, triste, pessimista, depressivo. Mesmo o final, que comentarei mais à frente, trai seu propósito declarado, que é o de transformar um desfecho inevitavelmente deprimente em algo redentor.

A primeira característica marcante de A Última Gargalhada é a ausência de textos explicativos e ordenadores da história. Há uma carta lida, absolutamente necessária para a boa compreensão do enredo, mas é só. No mais, toda a história é contada unicamente por imagens, o que nos obriga a um esforço extra de compreensão. Quase ao final há um texto explicativo, mas que oferece uma virada na história.

Lembrei, enquanto assistia ao filme, de ter lido em algum lugar que Arnheim considerava o cinema mudo superior ao falado por sua capacidade de apresentar abstrações, perdida com o acréscimo do som. Neste filme de Murnau, sem o auxílio dos textos explicativos, essa capacidade de abstração é exigida o tempo todo. O filme impressiona a começar por esta característica. Não há som, não há texto, mas as imagens são eloquentes, em uma história coerente do começo ao fim.

Uma outra característica importante de A Última Gargalhada é que as personagens não têm nome, o que está acordo com a ausência de textos, mas também tem um propósito específico: sem nome, as personagens são apenas uma função; suas identidades se confundem com o que fazem, ou com o lugar onde vivem, e é exatamente por aí que começo a contar a história.

O porteiro de um hotel de luxo, já de certa idade, orgulha-se de ser o que é, e credita seu valor a essa função. É apenas um porteiro, mas no cortiço onde mora é tratado como alguém importante, que trabalha em um lugar importante e usa uniforme de gente importante. Seus dois únicos prazeres na vida são servir aos clientes importantes e caminhar de uniforme pelo cortiço em que vive. Amando-se no uniforme, ele caminha como se fosse um dos clientes do hotel em que trabalha, ou um general chegando em casa depois de cumprida uma missão muito importante.

A partir desse ponto, spoilers. Alguém se importa?

Infelizmente já não é tão novo, e não tem mais o fôlego e a energia que seu trabalho exige. Infelizmente, também, é visto pelo gerente do hotel em um momento de fragilidade, quando tem de se sentar para recuperar as forças. Como resultado, é dispensando da função de porteiro, cartão-postal do hotel, e conduzido à função degradante - e oculta - de limpar banheiros. Antes, era a primeira pessoa que todos viam ao chegar ao hotel. Agora, é alguém que ninguém vê, que ninguém quer ver, que ninguém sequer olha.

Vai-se embora a função importante, e com ela o uniforme bonito, sinônimo de respeitabilidade, de identidade, de nobreza e de valor. Mas o uniforme é o homem. Devolvê-lo significa perder a referência. Significa também chegar em casa sem ele.

Quando tem de devolver o uniforme, o porteiro, que antes andava olhando para o mundo de cima para baixo, agora mal consegue andar, inclinado, claudicante, carregando o peso do mundo nas costas. Sem o uniforme, não é mais um homem; perdeu sua humanidade. Antes era tudo. Agora, é nada.

A trajetória da personagem segue em linha descendente. O fim é previsível: o porteiro morre, com a vida se exaurindo pouco a pouco nos banheiros que lava, no desprezo dos vizinhos, na piedade da família, no anonimato de sua nova função.

E então, a supresa final, que Aristóteles chamaria de peripécia, a reviravolta na história: sabemos que o homem vai morrer como verme, quando não pode mais nem viver nem morrer como homem. Sabemos disso muito bem, mas vamos conceder a ele a única saída possível, já que até mesmo a esperança se perdeu. Vamos conceder-lhe o inverossímil, o que a história não autoriza, o que a realidade não permite: vamos conceder-lhe a riqueza inesperada, a redenção da pobreza infinita pela riqueza infinita, a redenção da fome pelo banquete de reis, a redenção da desigualdade social pela benevolência, a redenção da injustiça pela justiça.

Por que não?

Se a vida não permite nada disso, ao menos a fantasia permite. E o que é o cinema, senão fantasia?

Esta é a última gargalhada.

Como disse inicialmente, este desfecho improvável trai deliberadamente o seu propósito, mas isso é assunto para outro momento.

Tuesday, July 14, 2009

Vida e morte de um fantasma

Assisti hoje a Phantom, de Murnau. Fantástico.

É difícil para mim, que não tenho um olhar "clínico" sobre o cinema, separar o diretor da narrativa. Murnau não é o autor da história, uma obra literária, e não li o livro, mas suponho que o modo como a conta seja em boa parte responsável por sua força dramática.

Lorenz, um rapaz pobre, sem perspectivas além de um futuro medíocre como funcionário público, é consciente disso e busca refúgio na literatura, tanto como leitor quanto como autor. Quer ser poeta, mas lhe falta talento. O espírito romântico e sonhador, no entanto, o torna vítima de seus desejos. Lorenz não quer, como a irmã, ascender socialmente; ele quer apenas correr atrás de sua fantasia, torná-la real. Por sua obsessão, toma uma série de decisões erradas, pelas quais terá de responder legalmente.

O evento que marca a mudança em Lorenz é um atropelamento, que o coloca em contato com uma jovem rica, bela e inacessível, o fantasma do título. Veronika é um fantasma no sentido psicanalítico, fetichizada, transformada em objeto sagrado cuja posse teria o efeito de preencher um vazio existencial. Ela o faz por sua ausência, por sua inacessibilidade, com uma força que quase o destrói. Veronika é a expressão desse vazio, algo que ele precisa conquistar para se sentir pleno, e cuja falta é sentida como presença. Veronika é a presença não-presente, a irrealidade que comparece como toda a realidade possível.

Lorenz tenta escapar de sua miséria emocional e intelectual, abstrata, lançando-se numa procura pelo Graal, pela salvação na posse do sagrado, do ideal. Como Parsifal, perde-se na procura, que não é outra senão a de si mesmo. Como Parsifal, tolo e idealista, é passível de se reencontrar na perda do sagrado.

Melanie, sua irmã, tenta escapar da miséria material pelo imediato, pela busca de conforto material que, julga, a prostituição lhe trará. Ambos se perdem e têm como resultado de suas escolhas a potencialização daquilo de que tentavam desesperadamente fugir. Mas Melanie busca a saída materialista; não há idealismo nela. Por isso, sua história é descendente. Lorenz, ao contrário, é idealista, e suas escolhas o levam à cadeia, mas também ao autoconhecimento. O menino Parsifal, que quer encontrar o Graal, agora é um homem que precisa contar sua história para expiar seus pecados e se reconciliar com suas perdas.

É possível ver a mão de Murnau na carruagem branca, fantasmagórica, que Lorenz visualiza sempre que tem de se decidir entre continuar sendo o que é ou dar mais um passo em direção ao que não quer ser.

A cena de Lorenz atormentado, caminhando pela cidade vazia, os prédios se inclinando sobre ele como se quisessem sufocá-lo, as sombras o perseguindo, é antológica.

Independentemente da história contada, a força narrativa de Murnau é de fato extraordinária.